24 novembro, 2011
23 novembro, 2011
Dá tempo!
Não vim fazer um balanço anual, apenas pretendo registrar alguns sentimentos recentes.
Quando 2011 começou, decidi que seria o ano da vitória. Muitos anseios e medos habitavam meu interior, fazendo-me parecer menor que já sou.
Medo de não adaptar, medo de decidir, medo de perder, medo de não alcançar, medo de chorar, medo de partir, medo de não dar tempo... Muitos medos que não dá mais pra contar!
Consequentemente ao meu decreto de vitória, venci o medo e me adaptei a novas situações, novos meios, novo sistema. Alcancei muitas metas, chorei, desabafei, inchei os olhos, deixei ir tantas coisas que já não me pertenciam, tanto sentimento alheio a essa menina vitoriosa.
Deu tempo de aprender, tempo de conhecer pessoas incríveis, de deixar velhos hábitos de lado... Deu tempo de reencontrar minha mamãe, irmã e conhecer os sobrinhos...Ah!..que encontro rápido e intenso!
Deu tempo de matar a saudade, deu tempo de amar, deu tempo de agradecer a Deus, deu tempo de pedir paciência, deu tempo de ler, cantar, dormir, pular e dançar!
Deu tempo para contar borboletas, de lixar as unhas, deu tempo de escrever o que sentia, deu tempo de arriscar!
Consegui errar e aprender. Consegui ouvir e dizer o que sentia.
Senti que deixei o medo partir, tive coragem para fazer as escolhas certas, pensando no que é melhor para mim. Creio que esse 2011 foi o ano da coragem, esse foi o ano que tornou-me um pouco mais matura.
Ainda não cumpri todas as metas de 2011. Mesmo assim agradeço a Deus pelo que consegui alcançar até o momento e peço sabedoria e força para tomar as decisões certas e dentro do prazo.
Deu tempo de saber que não sinto mais medo!
Deu tempo de saber que não sinto mais medo!
21 outubro, 2011
Rosinha, Minha Canoa...
Em uma das minhas visitas à sala de
leitura da EE deputado Gregório Bezerra, me deliciando com os inúmeros títulos
que povoam aquele espaço, encontrei o livro "Rosinha, minha canoa",
do autor José Mauro de Vasconcelos.
Das obras do autor, até hoje só havia lido
o livro "O Meu pé de Laranja Lima" - li não, mergulhei na história do
menino Zezé e sua infância que me fez debulhar em lágrimas, todas as cinco
vezes que o li. Descobri o autor na minha infância, mas até hoje carrego esse
livro, como quem carrega um presente, um tesouro, um livro que fiz questão de
comprar e ter na minha estante para ler sempre que desejar.
Até então, não havia mais sentido a
alegria e o despertar iluminado para ler outro livro do José, apesar
da minha amiga Raquel já ter comentado da beleza de "Rosinha, minha
Canoa".
Finalmente, ontem tive a oportunidade de
encontrar esse tesouro escondido em uma caixinha com outros livros, que
imediatamente ficaram invisíveis quando meus olhos cruzaram com o nome JOSÉ
MAURO DE VASCONCELOS naquele livrinho tão frágil.
Apanhei-o. tão pequenino (menor que um
palmo da minha mão), gasto pelo tempo, com um descascadinho quase apagando o
nome da editora Melhoramentos no rodapé da capa, cor desbotada pelo tempo e
provavelmente pelo contato das muitas mãos que evidentemente já o carregaram.
As páginas amareladas, soltando aquele cheiro bom de livro misturado com o
tempo, que particularmente adoro.
Todas essas características logo
despertaram em mim o desejo de desvendar aquelas páginas. Sei que tem gente que
não gosta de "livro velho", mas se tem coisa que me deixa satisfeita,
é pegar um livro gasto pelo tempo, sentir que muitas mãos os pegaram, muito
olhos deslizaram por cada uma das linhas, sorrindo, emocionando, se revoltando,
lendo...
Viajo mais ainda quando vejo uma manchinha
de líquido na folha, fico imaginando se terá sido uma lágrima, suor, suco,
café... Penso isso porque tenho muitas lágrimas hospedadas em muitos livros que
já li, inclusive do "O Meu pé de Laranja Lima". E nessa viagem fico
pensando: “Quem mais terá notado quanta emoção há impregnada nas páginas de um
livro velho”?
Voltando ao momento do encontro com
"Rosinha, minha canoa", quando peguei o livro, senti que estava
gasto, observei a capa com a figura de uma canoinha frágil, com uma figura
humana segurando um remo, navegando em águas já esbranquiçadas pelo tempo, no
canto inferior, a imagem de um pássaro que desconheço o nome, formando um
cenário convidativo, não demorei: abri o livro, li com emoção a "Explicação"
do autor para uma aluna que me acompanhava no "garimpo dos livros".
Decididamente sorri, fechei o livro e
disse "vou levar".
A linguagem delicada, poética, leve,
simples, linda e engraçada do José Mauro de Vasconcelos, despertaram todo o
gosto adormecido que havia sentido quando li "O Meu pé de Laranja
Lima".
Hoje li no ônibus, estou no terceiro
capítulo, confesso que já estou encantada pela Madrinha Flor, a simplicidade e
graça do Zé do Adeus (dei boas gargalhadas no ônibus, lendo a consulta dele com
o Doutor), o jeito "xengo-delengo-tengo" de falar da canoa, o jeito simples
e gostoso de ser do Zé Orocó... Já vi que esse livro vai para minha cabeceira,
fazer companhia aos outros que me fazem sorrir.
11 setembro, 2011
Eu Acredito!
Sou uma pessoa muito crente. Sim, crente! Aquela que crê em alguma coisa, em alguém! E quando digo que acredito, preciso dizer qual é o objeto da minha crença.
Acredito que leitura não se ensina, se contamina.
Aprender a ler é um fato na vida das pessoas, uns aprendem depressa, bem cedo, outros demoram um pouco mais, e outros, bem...não conseguem dominar a prática durante toda a vida.
Aprendi a ler muito cedo, com sete anos já lia tudo, rabiscava alguns garranchos e forçava as pessoas a lerem os mais absurdos neologismos.
Desde cedo frequentei a biblioteca, levava muitos livros para ler em casa, e anotava todas as leituras que fazia na minha minúscula cadernetinha.
Então, você que me lê, pergunta: "quem contaminou essa menina com a leitura?" Tento buscar na memória, e vejo minha mãe, que teve pouca oportunidade para estudar, sentada, lendo a bíblia ou algum livro da igreja. Taí, foi a Dona Maria quem me contaminou com a leitura. Tanto é que logo cedo li a Bíblia também.
Com essa contaminação, saí lendo, lendo, fui ler no Curso de Letras, que é o que SEMPRE quis fazer, lá, continuei amando mais ainda a leitura. E se hoje sei o que sei, graças aos livros que mergulhei, graças a esse hábito que sempre cultivei. Cada livro lido, cada história contada, cada conversa sobre uma leitura, tudo isso pra mim é pura riqueza.
Já fiz amigos por causa de livros, já ganhei livros de amigos, já li para os amigos, já ouvi amigos lendo para mim. O Livro e eu. Somos assim: um caso de paixão e fidelidade.
Se minha mãe não lesse em casa, acredito que eu não teria seguido esse modelo, claro que fui além da Bíblia, pois foi aí que descobri meu passatempo predileto. E dele nasceu a escrita.
Hoje, como professora, continuo devorando os livros que me cativam, claro que com uma voracidade menor, mas com a mesma paixão de menina. Paixão essa que venho tentando espalhar nas salas de aula por onde passo, pregando aos pouquinhos essa minha crença na leitura, que enobrece, entrete, alegra, leva para viajar...leitura que contamina.
Não ensino meus alunos a ler dando-lhes um livro obrigatório para uma prova boba que depois será engavetada. Deixo-os livres para serem cativados pelos livros, dou-lhes a liberdade de falar sobre como esse livro mexeu com eles. E tudo isso acontece nas nossas rodas de conversa e leitura.
Tenho visto depoimentos maravilhosos, emocionantes. Vejo-me em cada rostinho que fala do livro, me alegro em ver como mergulham na história e estão contaminados pela leitura.
É por essas e outras, que acredito que podemos ser um país de leitores. Basta você, leitor, contaminar alguém aí por perto. Não precisa falar nada, obrigar? Nem pensar. Suas ações contaminarão por você!
| Roda de Conversa e Leitura lá no CEU Vila Rubi |
"A gente não aprende a ler, a gente se contamina".
04 setembro, 2011
Jogos Online com o Tempo
Jogar com o tempo online é uma questão de sabedoria.
Se você tem tarefas para realizar em rede, cuidado! Você precisa ser muito organizado e disciplinado para conseguir "dar conta do recado".
Não pode ser uma pessoa relapsa como eu, abrir várias abas e visitar trocentos sites simultaneamente. Já fui boa nessa coisa de planejamento, mas ultimamente não consigo ter eficiência e eficácia se for pra realizar alguma atividade no computador, sempre desperdiço tempo, e não consigo terminar o que havia planejado.
Preciso encontrar uma maneira de corrigir essa falha, urgentemente! Uma boa parcela de culpa está no site de relacionamentos, Facebook. Depois que criei minha conta lá, desandei.
Vou encontrar uma forma de jogar melhor com esse meu tempo virtual, que é muito diferente do tempo real, posso multiplicá-lo se for sábia. Mas posso fazer quatro horas parecerem cinco minutos. Aí está meu problema.
Se você tem tarefas para realizar em rede, cuidado! Você precisa ser muito organizado e disciplinado para conseguir "dar conta do recado".
Não pode ser uma pessoa relapsa como eu, abrir várias abas e visitar trocentos sites simultaneamente. Já fui boa nessa coisa de planejamento, mas ultimamente não consigo ter eficiência e eficácia se for pra realizar alguma atividade no computador, sempre desperdiço tempo, e não consigo terminar o que havia planejado.
Preciso encontrar uma maneira de corrigir essa falha, urgentemente! Uma boa parcela de culpa está no site de relacionamentos, Facebook. Depois que criei minha conta lá, desandei.
Vou encontrar uma forma de jogar melhor com esse meu tempo virtual, que é muito diferente do tempo real, posso multiplicá-lo se for sábia. Mas posso fazer quatro horas parecerem cinco minutos. Aí está meu problema.
02 agosto, 2011
Pra onde vai?
Outro dia me perguntei pra onde é que vai toda a quinquilharia que vivo perdendo dentro de casa. Tenho o dom de perder minhas coisas nos momentos em que mais preciso delas. Não pensem que sou a pessoa mais desorganizada do mundo também não sou um exemplo de organização, mas procuro colocar cada coisa em seu devido lugar.
Compro um pacote de xuxinhas (prendedores de cabelo) e um mês depois não encontro uma pra remédio. Brilho labial, canetas, pen drive, documentos, cartão, protocolos, anotações, aquela blusa... São tantas coisas que a gente vai perdendo que pensei que era bem melhor não escrever nada a respeito. Já que perder é tão comum, que até existe santo pra gente prometer pulinhos caso encontre as coisas.
Quem será que pega? Quem esconde? Meus alunos disseram que o saci esconde tudo no redemoinho...
A nova música dO Teatro Mágico traduz ao pé da letra o que penso e o que passo. O título da música é perfeito. Essas coisas se perdem exatamente quando os olhos piscam.
Simplesmente curti.
28 junho, 2011
Andar Saltitante
Conversando com uma amiga hoje no intervalo do trabalho, fiz uma importante descoberta sobre uma característica muito particular. Quem me conhece, sabe que tenho a mania de andar saltitante. É. Ando pulando por aí, como se pulasse amarelinha ou estivesse ensaiando algum salto ornamental ou passo de dança.
Se eu fosse um menino, isso pegaria muito mal, certamente seria apelidado de gazela. Ainda bem que nasci menina, o que me permite ser saltitante sem ter que me preocupar em ser julgada ou não.
Fico pensando o motivo dessa minha mania, e hoje durante a conversa com essa amiga, relembrando os prazeres da infância constatei de onde vem minha mania de saltitar.
Passei a infância subindo em árvores pra comer fruta fresquinha, comia manga, jaca, jambo, caju, laranja, castanha, goiaba, cajá, acerola, ceriguela, pitanga, amora, abil,...tudo direto do pé. Lá em Montanha tinha um pé de caju bem no quintal de casa, quando era época da fruta, minhas professoras faziam a festa, todos os dias eu subia no pé de caju pra encher as sacolas pra elas.
Ah, como era bom comer manga verde com sal, cajá com sal e até a própria folha do cajá com sal! Qualquer fruta azedinha, era logo combinada com sal. Pensando nessa mistura toda, fico até com água na boca.
Minha infância também teve banho de rio, visão de cachoeira (quase secando, mas tinha). Morei em um bairro chamado Lajedo. As ruas de lá são todas de pedra, e qualquer caminho te levava ao rio. Quando não tinha água em casa, eu aproveitava a desculpa de lavar "vasilha" no rio só pra tomar banho. Um dia quase morri afogada. deu um medo danado!
Acho que foi nesse bairro que comecei com a mania de saltitar, quando escurecia, pessoas medrosas como eu, só podiam sair de casa se fosse saltitante. As ruas ficavam infestadas de sapo cururu. Sim! aquele super sapo com cara de buldogue. Eu morria de medo de sair nas ruas depois que escurecia. Só na porta de casa já cheguei a contar mais de dez desses "sapinhos amigáveis". Morria de medo que eles fizessem xixi nos meus olhos e me deixassem cega (lenda que ouvia desde menina).
O que o medo não faz com um pessoa! Fui transformada numa menina saltitante. O fato é que adoro ser assim!
19 maio, 2011
Motorista Particular
A caminho do trabalho, fico pensando porque ainda não aprendi a dirigir. Fico observando esse meu carro super espaçoso e entendo um pouco meu comodismo. Primeiro é a comodidade de ter um motorista particular. Um não! São incontáveis os motoristas que prestam serviço pra mim, sempre prontos a me levar onde eu quiser! Tudo bem que as vezes eles demoram um pouco a trazer meu carro, também pudera! Tive a sorte de encontrar motoristas tão generosos, que antes de me pegarem, dão "carona" para outras pessoas que vão encontrando pelo caminho! É só a pessoa esticar o braço, eles já vão parando!
Mas tudo bem, não reclamo, pago uma prestação muito barata por esse meu carro, apenas R$6 por dia, o que dá mais ou menos R$120 por mês! Duvido que alguém compre um carro do tamanho do meu pagando apenas essa prestação! De tão espaçoso que meu carro é, as vezes deixo outras pessoas sentarem e vou de pé ouvindo uma boa música e apreciando a paisagem. Que varia muito, indo de cenas bizarras como um bêbado dando show na rua, até as mais poéticas e simples, como as andorinhas no céu no voo mais perfeito e sincronizado que já vi.
Aproveito essa facilidade de ter um motorista particular das mais diversas maneiras: durmo, leio, converso com outras pessoas, leio seus jornais, ouço funk, um estiloque muito acrescenta em minha vida*. As letras são tão profundas, tão inspiradoras,tão poéticas, que eu precisaria de um blog só pra falar disso.
Mas tudo bem, não reclamo, pago uma prestação muito barata por esse meu carro, apenas R$6 por dia, o que dá mais ou menos R$120 por mês! Duvido que alguém compre um carro do tamanho do meu pagando apenas essa prestação! De tão espaçoso que meu carro é, as vezes deixo outras pessoas sentarem e vou de pé ouvindo uma boa música e apreciando a paisagem. Que varia muito, indo de cenas bizarras como um bêbado dando show na rua, até as mais poéticas e simples, como as andorinhas no céu no voo mais perfeito e sincronizado que já vi.
Aproveito essa facilidade de ter um motorista particular das mais diversas maneiras: durmo, leio, converso com outras pessoas, leio seus jornais, ouço funk, um estilo
Nos dias de trânsito, quem fica estressado é o meu motorista, eu olho para aquela fila de carro lá fora e penso que é um bom momento para dormir, se eu estiver sentada, claro! Se estou em pé em um desses momentos estáticos do trânsito, ouço Jeremy Camp e resmungo um la la la.
Outra coisa que me alegra de ainda não ser motorista, é o fato de não ter que me preocupar com vagas para estacionar. Enquanto as pessoas brigam por um lugar na rua, meu carro particular já tem lugar cativo, e quando eu preciso dele, é só caminhar até o ponto estratégico que ele estará lá, lotado ou vazio para levar-me onde eu quiser. Nem pago estacionamento. Sem falar no IPVA, Seguro, Licenciamento e Manutenção. Estou livre dessas taxas todas!
Quando eu resolver aprender a dirigir, vou trocar de carro, deixarei o G.O.L**. e comprarei um outro modelo. Ainda não decidi quanto ao modelo, gosto muito do Gurgel Super Mini II, mas se escolher esse, vai ser difícil me acostumar, o G.O.L. é um monstro perto do Gurgel, que de tão pequeno, é capaz de suportar apenas duas pessoas.
Mas enquanto nada disso acontece (minha carta e o carro) vou andando de G.O.L e pagando essa eterna prestação. E curtindo a liberdade que tenho enquanto ando de ônibus. Porque andar de ônibus é isso aí, tem seus altos e baixos. Depende do ponto de vista.
![]() |
| O dia em que meu motorista para o carro para todos que estendem o braço |
![]() |
| Gurgel Super Mini II - é esse aí que eu quero! haha |
*Lê-se: nada acrescenta! Odeio funk, minha gente!
** G.O.L : Grande Ônibus Lotado
16 maio, 2011
Pequenos objetos perdidos
Estava caminhando de volta pra casa semana passada, quando vi um adolescente com uma mochila nas costas, possivelmente voltando da escola, assim como eu. Observei que na mochila dele havia um mini-patins pendurado. No mesmo instante me lembrei que eu tive um daquele, isso há quase dez anos.
Na época que comprei o patins, eu ainda morava em Teixeira de Freitas, BA. Meu sonho consumista de criança sempre foi ter um patins, infelizmente não pude ganhar um, muito menos comprar. E para realizar o sonho de menina, um dia comprei um par de patins em miniatura. Ficava com eles nos dedos pra cima e pra baixo. Como se estivesse realmente patinando, sentia-me a pessoa mais realizada do mundo.
Na época de mudar de lá para São Paulo, tive que me despedir de uma grande amiga, a Charlene. Nós éramos como unha e cutícula, andávamos sempre juntas e nos divertíamos muito. Fiquei pensando no que daria à ela quando fosse embora. Nós havíamos feito um rede de crochê, eu havia escrito toda uma agenda para ela, que havia bordado uma toalha com meu nome (tenho essa toalha até hoje). Dentre essas coisas, senti vontade de separar o meu par de patins. Fizemos um pacto, o pacto do patins. Eu ficaria com um pé e ela com o outro, toda vez que sentíssemos saudade uma da outra, pegaríamos o pé do patins para brincar. Ela sabia que aquele brinquedo era muito especial para mim.
Esse pé de patins me acompanhou durante muito tempo, sempre lembrando da Charlene, relendo suas cartas e brincando com o pé do patins. Foram muitos anos, dentro desses dez, que carreguei esse patins. Quando falava com a Cha, sempre perguntava se ela ainda o tinha. O tempo foi passando, fomos perdendo contato, minha amiga casou, eu fui morar em Atibaia, depois voltei para Diadema, mudei diversas vezes de casa, e nessa via sacra, não sei mais onde foi parar o meu pé de patins.
Essa lembrança me fez pensar em como o tempo faz a gente se distanciar das pessoas, por mais que as amamos, a saga diária faz com que a gente deixe de pensar nessas pessoas, vai deixando de lado, vai deixando de dar atenção e quando vai ver, já se distanciou. Não queria ter me distanciado assim dessa amiga, assim como não queria ter me distanciado de tantas pessoas especiais que já passaram pela minha vida.
Esse pé de patins denunciou o meu distanciamento das coisas queridas, não estou cuidando direito dos velhos amigos. Se eu tivesse cuidado bem dessa amizade, talvez ainda saberia do paradeiro desse pé de patins.
Será que o pé que ficou lá na Bahia ainda existe? Será que é guardado com carinho? Será que ela lembra do pacto? E a rede? Será que ela lembra que construímos juntas aquela rede de barbante na escola e em sua casa? Não sei a resposta para essas perguntas. Tentarei identificar onde deixei o meu pé de patins e depois procurarei a Charlene para saber se lembra dessa nossa façanha. Ainda bem que não a perdi das redes sociais.
Depois que meu pensamento deixou o pé de patins de lado, comecei a pensar em todos os meus objetos um dia perdidos, já perdi tanta coisa, que não saberia onde começar a procura.
Xuxinhas, canetas, manuscritos e as pequenas coisas que vou perdendo, e que só me dou conta quando não sei mais por onde começar a procura...
30 abril, 2011
Presente em Versos
A vida é cheia de surpresas.
Mesmo sabendo que acabei de digitar uma frase feita, é assim que inicio essa postagem para falar da surpresa que Sueli me fez.
Para quem não sabe, Sueli é uma super poetisa que cursou Letras na Faculdade Anchieta comigo. A gente se fala de vez em quando pelo orkut e em comentários do blog.
A Su é uma verdadeira desbravadora com as palavras, sempre se aventurando e expressando emoções e sentimentos vividos nos Momentos Incríveis de seu dia-a-dia, todos grande parte deles compartilhados em seu blog.
Outro dia abri o meu quase aposentado e-mail do Yahoo e encontrei lá a surpresa da Su, que me fez até chorar.
Fiquei emocionada com o que ela enviou: um poema escrito por ela, e para mim!
Fiquei muito emocionada com a sensibilidade da Su, com seu carinho e amizade.
Guardei o poema com carinho para compartilhá-lo aqui e onde for.
RARA FLOR
Para Jaque Flowers
O jardim estava pronto.
Com flores de todos os cheiros,
perfumes bem variados.
Um colorido intenso!
Eis que chega nova semente,
Se juntar as densas flores.
Em meio a temporada.
Cheia de novidades, lá do interior
Cheia de novidades, lá do interior
Trouxe no saquinho: surpresa,
E um raro perfume de flor.
E entre os barulhinhos de silêncio:
Um lindo sorriso de amor!
Tão só! Sem companhia,
Quase tímida, mas guerreira,
Mostrou nos primeiros dias
Toda sua beleza.
Flor rara e maravilhosa!
Amiga de todas flores!
No jardim, acompanhou seu florir.
Cresceu aumentando a colheita.
Assim foi incorporando,
Ocupando seu espaço na turma,
Seu saber compartilhando.
Sua alegria espalhando.
Difícil esquecer a Flor,
mais nova e rara do jardim.
Que com seu perfume intenso,
fez todas as flores se abrirem!
(Sueli Rodrigues) - 31 de março de 2011
Sei dizer que a Su me traduziu nesse poema. Obrigada pela homenagem, querida, Serei eternamente grata!
Você tem o dom! Parabéns!
24 abril, 2011
Feriadão Santo
Tirei pra descansar.
Colocar diários em dia,
Cuidar das roupas, da casa...
Do coração...
Quinta-Feira Santa
Sexta-Feira Santa,
Sábado de Aleluia,
Domingo de Páscoa: Ressurreição.
E mal acabaram os ovos, já estão chamando as pessoas nas vitrines para comprarem os presentes para o dia das mães!
Colocar diários em dia,
Cuidar das roupas, da casa...
Do coração...
Quinta-Feira Santa
Sexta-Feira Santa,
Sábado de Aleluia,
Domingo de Páscoa: Ressurreição.
Alguém lembrou disso? São poucos os que se lembram do sentido real desse feriado, porque não trabalhamos, porque são Santos esses dias. Só quem é de fato religioso, segue à risca toda a tradição. (Não sou, não sigo, mas respeito e observo as pessoas, que estão mais é preocupadas com a descida para a Praia, nem ligam para as horas paradas no trânsito, dizem que vão descansar, eu penso é que vão ficar mais cansadas!
Filas se estendem pelos mercados, pessoas desesperadas em busca de ovos de chocolate (quanto maior, melhor, e se tiver brinquedo, então! Realização total!)
É uma disputa pelo peixe, tem que ter bacalhau na mesa, não importa se as garrafas de cerveja serão secadas depois, "mas hoje não pode comer carne porque é pecado!"
Fico me perguntando se comer um pedaço de carne é pecado nessa semana santa! Do que adianta a pessoa não comer carne, mas encher a cara de bebida alcoólica, dirigir embriagado e virar estatística no feriado mais acidentado do ano? (A mídia adora expor essas manchetes!)
Fico me perguntando onde estão os valores e as tradições dessa sociedade...porque o que vejo ao meu redor é apenas o consumismo imediato..
18 abril, 2011
Gratuidade das Aves e dos Lírios
Não costumo postar poemas alheios, mas Manoel de Barros e seus encantamentos me obrigam a divulgar aqui a doçura e simplicidade de suas palavras.
Há pouco tempo descobri uma coluna na rádio Band News, chamada "Devaneio". São poemas de poetas consagrados, como Cora Coralina, Carlos Drummond, Florbela Espanca e o poeta do Pantanal: Manoel de Barros, todos os poemas na voz do grandioso Juca de Oliveira.
Ouvir esses poemas na voz do Juca é como fazer cócegas diárias nos ouvidos. Quando tem Manoel de Barros, ouço mais de cinco vezes...Ontem ouvi "Gratuidade das Aves e dos Lírios", poema abaixo. Para quem gosta de sentir o poema roçar nos ouvidos, fica o link.
Ouça e leia, leia e ouça, ouça e chore, chore e sorria, leia e suspire...ah...aprecie!
Sempre que as gratuidades pousam em minhas
palavras,
elas são abençoadas por pássaros e por lírios.
Os pássaros conduzem o homem para o azul,
para as
águas, para as árvores e para o amor.
Ser escolhido por um pássaro para ser a árvore
dele:
eis o orgulho de uma árvore.
Ser ferido de silêncio pelo vôo dos pássaros:
eis o esplendor do silêncio.
Ser escolhido pelas garças para ser o rio delas:
eis a vaidade dos rios.
Por outro lado, o orgulho dos brejos é o de
serem escolhidos
por lírios que lhes entregarão a inocência.
(Sei entrementes que a ciência faz cópia de
ovelhas
Que a ciência produz seres em vidros
Louvo a ciência por seus benefícios à
humanidade
Mas não concordo que a ciência não se
aplique em
produzir encantamentos.)
Por quê não medir, por exemplo, a extensão
do
exílio das cigarras ?
Por quê não medir a relação de amor que os
pássaros
têm com as brisas da manhã ?
Por quê não medir a amorosa penetração das
chuvas
no dentro da terra?
Eu queria aprofundar o que não sei, como
fazem os
cientistas, mas só na área dos encantamentos.
Queria que um ferrolho fechasse o meu
silêncio, para
eu sentir melhor as coisas increadas.
Queria poder ouvir as conchas quando elas se
desprendem da existência.
Queria descobrir por quê os pássaros
escolhem
a amplidão para viver enquanto os homens
escolhem
ficar encerrados em suas paredes ?
Sou leso em tratagem com máquina; mas
inventei,
para meu gasto, um Aferidor de
Encantamentos.
Queria medir os encantos que existem nas
coisas sem
importância.
Eu descobri que o sol, o mar, as árvores e os
arrebóis
são mais enriquecidos pelos pássaros do que
pelos
homens.
Eu descobri, com o meu Aferidor de
Encantamentos, que
as violetas e as rosas e as acácias são mais
filiadas dos
pássaros do que dos cientistas.
Porque eu entendo, desde a minha pobre
percepção, que
o vencedor, no fim das contas, é aquele que
atinge
o inútil dos pássaros e dos lírios do campo.
Ah, que estas palavras gratuitas possam agora
servir
de abrigo para todos os pássaros do Brasil!
Manoel de Barros
Campo Grande, 27 de outubro de 1999
____________________________________
Acompanhe sempre a coluna Devaneios para ouvir Outros Poemas do Manoel e de outros poetas na voz do Juca.
17 abril, 2011
Luar
Lua Cheia
Olhos brilhantes
Claros
Castanhos
Divinos
Lua cheia
Vivo olhar
Luar.
Luar é a mistura da lua cheia com teu olhar
Desperta em mim toda a paixão
Toda a ternura
Toda a vontade de abraçar.
Quando avistar a lua cheia
lembrarei
que há uma união que a torna mais bela
A Lua,
Teus olhos...
Luar!
Olhos brilhantes
Claros
Castanhos
Divinos
Lua cheia
Vivo olhar
Luar.
Luar é a mistura da lua cheia com teu olhar
Desperta em mim toda a paixão
Toda a ternura
Toda a vontade de abraçar.
Quando avistar a lua cheia
lembrarei
que há uma união que a torna mais bela
A Lua,
Teus olhos...
Luar!
26 março, 2011
Emoções e descobertas em Rodas de Conversa
Há quase três meses lecionando no CEU Vila Rubi já vivi muitas emoções com minhas três turmas de sexto ano. E com esse mix de emoções afirmo: a leitura mexe com a emoção das pessoas, a leitura transforma, há coisas que um livro pode fazer na vida de uma pessoa que não sou capaz de descrever aqui.
Tenho como método solicitar leituras aos alunos e um diário de leitura registrando o envolvimento deles com o livro, peço que escrevam nesse diário como foi o encontro deles com o livro, o que o levou a lê-lo, os sentimentos despertados, o que conseguiram aprender. O registro do diário de leitura vai além do resumo sobre o enredo do livro. Meu aluno tem que produzir teu pensamento no diário, o que leva essa tarefa a ser carregada de emoção e envolvimento do aluno com o livro.
Na primeira semana de aula expliquei-lhes que leriam livros e escreveriam sobre essas leituras no diário de leitura, e como sou uma doida por livros, fui deixando bem claro para eles que essa seria uma tarefa de dentro, uma conversa do leitor com o livro. Fui deixando bem claro para eles também que sou uma pessoa que lê e gosta muito do que faz. Acho que perceberam isso e foram contagiados, porque no dia marcado para a entrega do diário e da nossa Roda de Conversa sobre as leituras feitas, me surpreendi tanto, que a emoção é difícil de descrever.
| A nossa tímida Roda de Conversa sobre as leituras depois virou festa |
Meus alunos possuem um repertório literário que achei lindo e digno de condecorações. As leituras foram desde Chapeuzinho Vermelho a Marley e Eu. O melhor ainda é que cada um contou seu envolvimento com o livro, leram livros que ganham da Prefeitura para comporem suas bibliotecas, leram livros emprestados pela Biblioteca do CEU e pela Sala de Leitura, leram livros que tinham em casa, livros que pediram para os pais comprarem. Poucos do sexto ano ficaram sem ler, até quem chegou por último na turma (matrícula suplementar) queria ler e falar sobre um livro.
Essa experiência de falar para o outro, de ser ouvido, de falar de algo que viveu, de uma descoberta, deixou-os a princípio, aflitos, mas depois todos se soltaram, teve gente que não queria mais parar de falar. Na roda de leitura tive reencontros com muitos livros que li na minha adolescência, foi um reencontro maravilhoso, meus livros prediletos estavam lá nas mãos deles, e comecei a me sentir parte daquela história que eles estavam contando. O meu pé de Laranja Lima, O Pequeno Príncipe, Beleza Negra, livros da coleção Salve-se quem puder e muitos outros que li e gosto estavam ali na roda de conversa. Para mim, aquela roda foi só risos, emoções e descobertas.
Sim, aprendi muito com meus alunos, trouxeram-me sugestões de livros que pretendo ler com certeza. Já comecei ontem com o livro da Clarice Lispector sugerido por alguns alunos A vida íntima de Laura, li e gostei muito. Nessa roda de leitura descobri que ainda tenho muito o que ler.
| Não lembrava que a Clarice escrevia para crianças. Ótimo livro para falar do tema diversidade |
É tão bom quando a gente fala a mesma língua, e é tão bom quando acontece essa troca com uma turma, melhor ainda quando a troca e com três, quatro turmas. Estou muito feliz com esse presente: alunos apaixonados por livros. Causadores de emoções e descobertas. Já vi que o ano promete. Quero fazer nosso próximo encontro lá na Biblioteca do CEU.
17 março, 2011
Mais uma dose de Lygia Bojunga
Mês de Março começou muito bem para minha vida de leitora. Comprei dois livros. Um deles é da Lygia Bojunga, o outro é de Milan Kundera, autor que ainda desconheço, mas despertei interesse pelo livro numa conversa que tive outro dia com um professor de Artes lá do CEU.
Encomendei os dois livros pelo site da Livraria Cultura no mesmo dia. O livro do Milan chegou primeiro, mas não chamou muito minha atenção, e como estava com a capa um pouco amassada por causa da chuva, coloquei-o em cima da teve sobre outros e livros e lá está ele até hoje.
Já o livro da Lygia foi mais um caso de paixão ao primeiro contato. Quando entregaram o livro, eu não estava em casa, deixaram na casa da vizinha. Somente depois das 23h30 é que fui saber que ele me esperava lá. Fui buscá-lo embaixo de chuva e foi quando abri a caixa que o encantamento aconteceu. "LIVRO - um encontro" : esse foi o livro que encomendei. Quando tirei-o da caixa, fiquei encostada na pia, segurando-o, passando a mão na capa e olhando para a foto da Lygia, fazendo a mesma coisa que eu fazia naquele instante, admirando um livro.
Não sei quanto tempo fiquei nessa contemplação. Mas logo despertou em mim a vontade de ler depressa aquele livro, mas antes de terminar a página 27, a vontade de escrever atropelou tudo. Abri o livro, peguei a caneta e desatei a conversar com o livro:
"Lygia, essa página aqui é meu canal de comunicação contigo. São 23h50 do dia 02 de março de 2011.É verão chuvoso (quase outono), acabei de receber teu livro. Digo melhor: acabei de ter o primeiro encontro de verdade com este livro. Terminei Querida no domingo e aguardei ansiosa por esse encontro aqui. Achei esse livro tão magrinho, mas logo que abri, fui me ligando que esse aqui é um caso de amor teu com o LIVRO. Já me identifiquei, tanto que disparou dentro de mim a vontade de escrever, tão logo cheguei na página 27. Lembrei muito do meu encontro contigo, acontecimento de 2009. Logo já imaginei nós duas sentadas no banquinho do 'retiro' falando da 'nossa gente' que habita nos 15 livros já lidos. Encontro maravilhoso. Estou com tanto sono, vou deixar para continuar a ler depois, não fique triste, volto logo. Já entendi porque esse livro é bem magrinho: é uma história de amor não inventada, com livro e toda emoção que couber nas palavras. Cada página equivale à emoção de 10. /91x10=910 páginas. P.S. Fiquei um bom tempo viajando com tua foto na capa. Divina."
A leitura do encontro da Lygia com o LIVRO provocou em mim muitas sensações. Muito diferente das sensações experimentadas nos outros livros. É como se nos fizéssemos companhia. E é uma companhia muito boa. Senti-me tão à vontade com as memórias dela, identifiquei-me tanto com teus casos. E pensar que meu encontro com a Lygia aconteceu há quase dois anos de forma tão inesperada! Só agora lendo o encontro dela com o LIVRO, muita coisa faz sentido pra mim. Passei o Carnaval na companhia da Lygia. Melhor Carnaval é mergulhado em Livro.
Quando a Lygia fala do encontro dela com a escrita, lembrei da vontade que tenho de retomar meu encontro com a escrita lá da adolescência. Sabe como??? Resgatando meu caderninho lá do quartinho de bagunças da minha avó (que mora na Bahia), temo que não esteja mais lá, até liguei ontem para investigar o paradeiro desse caderninho, mas não consegui falar com Vovó.
Incrível como a leitura dos livros da Lygia sempre soam como conversa. Resultado disso foi o livro todo conversado, com anotações lápis, parecia até um kit inseparável: o livro, meus olhos, minha mão e o lápis.
Durante a leitura, fiquei encucada com uma coisa: a Lygia conta de suas paixões pelos livros e autores, mas tem um que ela prefere não citar o nome, dando apenas as características do seu estilo, o que me deixou um tanto curiosa para descobrir o nome do santo. Pelo milagre, imagino que seja um autor que já fui muito apaixonada também, mas não vou arriscar palpite antes de investigar, quando descobrir, posto minhas conclusões. Mas estou louca para saber quem é o autor que a Lygia lia que escrevia livros por "receitas".
Quando terminei o livro, fiquei ainda a escrever nas páginas em branco que me restavam. Registrei o restante de nossa conversa:
É Lygia! Falta apenas ler "Fazendo Ana Paz" para completar a trilogia (Paisagem, Livro-um encontro e Fazendo Ana Paz). Fico pensando, qual será a sensação que terei quando terminar essa trilogia. Nesse momento, senti imensa vontade de reler "Paisagem", cheguei a sonhar com aquele livro. Imagine só? Juntar os três em uma única publicação? Vou relê-los juntos, com lápis nas mãos e sorriso na cara! Você é demais Lygia! Esse teu jeito particular de entrelaçar as histórias me prenderam à tua escrita. Cada livro que leio, quando chego à última página, já está causado em mim o desejo de ler o próximo livro, de reler esse que terminei. Teus livros se casam tão bem, que a sensação logo é de conversa. É isso que penso, Lygia, tua escrita é uma conversa que não termina, e que o leitor não se cansa jamais de ter contigo. A cada leitura, imagino-me sentada num dos cenários de tua obra falando contigo. Espero que lendo todos os teus livros, nosso assunto não chegue ao fim. Sua leitora mais apaixonada, Jaque Flowers. Ainda Verão, 2011.
16 março, 2011
Inspiração
Ontem escrevi que minha inspiração havia desaparecido, preocupada, produzi o mais solitário dos monólogos tentando encontrar uma solução pra essa falta de assunto.
A caminho do trabalho, na Avenida Interlagos, em uma das super-lotações de São Paulo, observava a cidade e o que ia ficando para trás à medida que a lotação avançava. Deparei-me com uma cena emocionante e ao mesmo tempo curiosa: acima de um prédio, bem ali no meio do caos e trânsito do meio dia estava acontecendo uma manifestação de passarinhos.
Na hora estalei os olhos e vidrei naquela cena. Eram mais de cem pássaros formando uma cena ímpar, o que posso descrever como revoada. Todos eles voavam acima daquele prédio (não havia árvores por perto), em pequenos círculos, indo para lá e para cá, como se estivessem fazendo uma revolução ou protestando por alguma causa.
Fiquei curiosa, desejei parar, desejei ter a câmera nas mãos para registrar o momento. mas não foi possível, apenas meus olhos testemunharam aquela cena, que logo trouxeram minha inspiração de volta. Penso que aqueles pássaros queriam ser vistos, talvez protestassem por uma árvore, por um lar verde e digno, talvez protestassem por uma flor. Talvez protestassem para que eu voltasse a escrever.
Aqueles pássaros mostraram-me que minha inspiração não havia partido, simplesmente falta disciplina e tempo para registrar esses pequenos momentos do meu dia.
Em pouco mais de dois meses fazendo esse caminho para o CEU Vila Rubi, meus olhos já testemunharam tantos eventos que não caberiam nessa postagem.
A inspiração não foge, a gente é que não está preparado para registrar as inspirações diárias, principalmente aquelas proporcionadas pela natureza. Uma coisa é certa: minha câmera precisa sair de casa. Ainda bem que me restaram as palavras.
15 março, 2011
Tá sobrando espaço
- Alô, Doutor? Tô ligando pra dizer que tô sofrendo mal de amor. Mal não, porque tá fazendo um bem danado. Mas é que de vez em quando dói, sabe? Não sei como a medicina nomeia esses sintomas, o fato é que as vezes dói. Dói lá no fundo da alma. Uma falta tão grande que fica sobrando espaço aqui dentro do peito. Ao mesmo tempo em que não há mais espaço pra nada. Também ando sem ânimo, Doutor. Sem ânimo pra tudo, com ânimo pra nada. Tá sobrando suspiro e faltando inspiração. Mas não vá pensando que é suspiro de padaria, que esse aí não sobra um, como todos de tanta ansiedade. Deve ser por isso que minhas calças não querem mais abotoar direito, e minhas blusas parecem que são de quando eu tinha treze anos. Ah, Doutor, passa um remédio aí, não sei o que faço pra ter de volta minha inspiração e continuar com esse mal de amor que tá fazendo um bem danado.
Não sei porque, mas me inspiro mais na dor. E agora tô sofrendo com a ausência da minha inspiração. Mas vou logo avisando, não quero dor! Não quero dor!
Não sei porque, mas me inspiro mais na dor. E agora tô sofrendo com a ausência da minha inspiração. Mas vou logo avisando, não quero dor! Não quero dor!
28 fevereiro, 2011
Influenciável, Eu?
No último mês tenho ouvido algumas pessoas dizerem que sou uma pessoa influenciável. Fiquei um pouco confusa até entender o que significava aquela acusação. Sim, essa definição soou em meus ouvidos como uma acusação. Não me sinto uma pessoa inflûenciável, que vai pela cabeça dos outros. Pelo contrário, sempre tive opinião formada sobre as coisas que desejo, que gosto e sobre quem sou.
Não me influencio nem pelo clima. Lembro que sou do contra com o tempo. Se faz sol, coloco roupa quente, se faz frio nunca levo a blusa. Se chove então, me molho toda, porque odeio carregar guarda-chuva.
Não gosto de andar na moda, seguir as tendências ditadas na TV ou assistir aos programas que empurram na gente no horário "pobre". Prefiro mil vezes desligar a TV e ler um livro, isso ninguém me influenciou a fazer, vem de mim, se outras pessoas fazem isso, é mera coincidência.
Minhas amizades são por afinidade, não por interesse. O que tenho ou o que faço é por necessidade ou desejo próprio. Ninguém cola desejos em mim.
Todo esse burburinho começou porque agora trabalho em duas escolas e estou muito dependente dos ônibus para me deslocar de uma escola à outra. leva um tempo que deixaria algumas pessoas estressadas. Não fico. As pessoas ficam por mim. Enquanto viajo de ônibus, sobra tempo para ler mais e tirar uns cochilos, quando dá para sentar.
Semana passada, havia acabado de chegar em uma das escolas e os colegas começaram a perguntar: "Agora vai comprar uma moto, não é Jaque?". Todo mundo sabe que sou louca por moto, mas tenho medo de tomar a decisão de adquirir uma, por medo de acidente, assalto e todos os acontecimentos que a gente sabe que giram em torno de uma moto.
Enquanto todos falavam para eu comprar a moto, entrou na sala o coordenador e disse: "Olha, gente, você não ficam dando esses conselhos pra Jaqueline, não, porque ela tem a cabeça fraca, ela compra mesmo!"
Não acreditei, foi uma gargalhada geral. todos rindo da forma como ele disse e da forma como reagi.
Contei o fato a outra pessoa, que confirmou que sou influenciável.
Continuo discordando. Se dissessem que sou teimosa, teria assinado embaixo. Agora "maria-vai-com-as-outras"? Isso não.
Vou teimar em andar de ônibus por dois anos, minha meta é essa. Depois penso em outro meio de transporte.
27 fevereiro, 2011
Querida - Lygia Bojunga
Querida é o livro mais recente da Lygia Bojunga Nunes, lançado em 2009. É também o décimo quinto livro dela que leio e o quarto que comprei. Os outros nove tomei emprestado da biblioteca, futuramente quando criar a minha biblioteca pessoal comprarei todos.
Desde que os livros da Lygia passaram a povoar meu cotidiano, meu vocabulário vai enriquecendo. Um emaranhado de acontecimentos passam a fazer sentido, como por exemplo, meus silêncios e sumiços do blog. Agora a pouco, quando terminava a leitura do livro "Querida" iniciada no dia 18/02, deparei-me com uma expressão que define meus silêncios na escrita: "empacamento verbal". É o que acontece comigo de vez em quando. As vezes, sinto muita necessidade de escrever, de registrar o que sinto, chego a não conter essa vontade em muitos momentos, o que gera altas explosões de escrita, ora aqui no blog, ora em uma folha de papel. Quando não tenho papel e encontro uma caneta por perto, a escrita logo se materializa em alguma parte do meu corpo, pernas, braços, barriga... Será que mais alguém tem essa mania que julgo tão infantil? Quando empaco verbalmente, os desenhos mais pitorescos surgem nos mais variados lugares. Florzinhas desengonçadas e pessoas completamente defeituosas. Segundo um amigo artista, o grande responsável por essas atitudes é o lado direito do meu cérebro.
Por falar no lado direito, ele acabou me distraindo e fazendo eu mudar o assunto da postagem. Comecei falando do livro "Querida" e da sensação que ele causou em mim. Enquanto o lia (grande parte da leitura ocorreu no ônibus), fui sentindo imensa vontade de escrever, senti que meu eu-escritora ia desempacando, estava sentindo-me como o Pollux.
Nessa obra, Lygia Bojunga ilustra o ciúme do menino Pollux e o encontro com o tio que nunca conhecera. Travando um convívio e descoberta do que há de mais comum entre duas pessoas. A "Querida" do Pollux e as "Queridas" do Pacífico fazem a gente se envolver logo nessa trama simples, realista e ao mesmo tempo intensa.
Querida consegue ser simples e complexo, curto e longo. Mostrando a realidade e os pensamentos mais profundos do imaginário de uma criança. O ciúme da Querida chega a ser mais personificado que o ciúme desenhado no conto "A troca e a tarefa" do livro "Tchau".
Querida consegue ser simples e complexo, curto e longo. Mostrando a realidade e os pensamentos mais profundos do imaginário de uma criança. O ciúme da Querida chega a ser mais personificado que o ciúme desenhado no conto "A troca e a tarefa" do livro "Tchau".
Ciúmes, morte, pobreza, sonhos, amores e amizade.
Só lendo para entender a forte trama do mais recente livro da Lygia Bojunga. Vale muito a pena. É um livro pra tomar conta do imaginário. O Retiro, a Ella, o Pacífico, o Teatro, as invencionices do menino Pollux, a Velha e o Bis a caminho do Piauí e as muitas viagens do Pollux-homem e as tuas histórias de amor "para sempre" tomaram conta de mim, consagrando mais uma vez a minha opinião sobre a obra Lygiana. Sempre Querida.
Só lendo para entender a forte trama do mais recente livro da Lygia Bojunga. Vale muito a pena. É um livro pra tomar conta do imaginário. O Retiro, a Ella, o Pacífico, o Teatro, as invencionices do menino Pollux, a Velha e o Bis a caminho do Piauí e as muitas viagens do Pollux-homem e as tuas histórias de amor "para sempre" tomaram conta de mim, consagrando mais uma vez a minha opinião sobre a obra Lygiana. Sempre Querida.
Mais um encontro em que não me decepcionaste, Lygia!
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Querida no Skoob
24 fevereiro, 2011
Indiferente coração
O coração sabe quando o outro coração não bate na mesma frequência.
E vai ficando quietinho, calado, afastado. Até se arrastar e bater em outro ritmo: desacelerado.
Desacelera um tanto pra depois trovejar em toque-toques medonhos,
dessa vez em ritmos diferentes.
Alheios ao outro coração indiferente.
E vai ficando quietinho, calado, afastado. Até se arrastar e bater em outro ritmo: desacelerado.
Desacelera um tanto pra depois trovejar em toque-toques medonhos,
dessa vez em ritmos diferentes.
Alheios ao outro coração indiferente.
13 fevereiro, 2011
Vizinhos: anjos ou demônios?
Para cada pessoa uma palavra tem um significado. Amor para algumas pessoas pode denotar o bem, a felicidade, boas lembranças; para outras pessoas significa decepção, ódio, tristeza, sofrimento. Tudo vai depender da experiência.
Há trinta e dois meses, quando resolvi morar sozinha, procurei desesperadamente por uma casa em um local sossegado, de preferência com entrada independente e sem vizinhos no quintal. Encontrei uma casa ajeitadinha, bem localizada, com valor do aluguel que cabia certinho no meu bolso. Mas, eu não estaria sozinha, teria de dividir o quintal com outra família ou pessoa que fosse morar na outra casa. Sem pensar muito, pois não haviam muitas opções de casa na redondeza. Mudei em Junho de 2008 e uma semana depois a família com três pessoas chegou para serem de fato meus vizinhos.
Fui logo com a cara deles, sossegados, tranquilos e com uma filha de dez anos, doidinha como eu. Logo ficamos amigas e era como se ela fosse a minha irmãzinha mais nova. Andressa não acreditava no início que eu era professora, só depois de me ver corrigindo textos madrugadas inteiras é que teve certeza do meu ofício. Ela passou a me fazer companhia em muitos momentos. Ouvia com interesse minhas histórias e experiências vividas na escola e acompanhou inteiramente o meu sofrimento de apaixonada.
Ficávamos acordadas até muito tarde, fazíamos vitaminas, sucos de maracujá com leite, temendo o barulho do liquidificador para não incomodar os outros vizinhos... Acompanhava-me nas caras e bocas também diante do barulho da impressora que trabalhava sem parar depois das 23h.
Brincávamos de tomar chá da tarde, de dançar, pular e cantar, tiramos fotos, fizemos as unhas, escovamos os cabelos, andamos de bicicleta, tivemos crise de riso e assistimos novelas, filmes e vídeos no youtube.
Minha amiguinha me acompanhou em muitas aventuras. Fomos ao Ibirapuera ver "O Pequeno Príncipe na Oca", recusamos amedrontadas às caronas oferecidas ao final da tarde. Fomos à Praia, ao Playcenter, Festa Junina e muitos outros lugares.
Seus pais, pessoas generosas, sinceras e prestativas. Sempre ali ao lado para o que precisasse. O engraçado dessa relação de vizinhos é que aconteceu como eu imaginava. Nenhum invadiu o espaço do outro e rapidinho chegamos aos trinta e dois meses de convivência. Não éramos daqueles vizinhos pegajosos, que ficam o dia todo um enfiado na casa do outro. Nos falávamos e nos ajudávamos sem precisar de um invadir a privacidade do outro.
| Andressa, vizinha, irmã e amiga |
Partilhávamos os sonhos, as vontades e as indignações com acontecimentos cotidianos. Andressa foi a primeira pessoa que abracei depois que saí do terreno onde será construído o meu apartamento. Abraçadas choramos como crianças, fiquei tocada com a sensibilidade da menina de treze anos, que acompanhou-me nesses quase três anos e sabia da intensidade do meu sonho e o quanto aquela notícia significava para mim.
Foram momentos únicos, não dividimos apenas o quintal e o tanque. Dividimos momento únicos. Infelizmente por motivos de força maior, meus amigos e vizinhos tiveram que partir. Eu já sabia há um mês, vinha tentando não acreditar e adiava o choro cada vez mais. Hoje foi o dia da partida. Passei o dia pensando no que diria quando fosse dizer tchau. Não consegui pensar em nada, não gosto de despedidas, fico sempre muito sem graça. Foi triste. Nos abraçamos, choramos e desejamos que nossas vidas continuem com felicidade. Queria acompanhar mais de perto a nova fase da Andressa, eu disse o ano passado inteiro que ela viraria “emo”, ela ria e dizia que não. Agora não vou poder acompanhar muito de perto. Logo estará uma moça, com novas amizades e compromissos além da escola e novela. Espero de coração que ela cresça e que continue a pessoa maravilhosa que é.
Procurarei não perder contato com esses anjos que por trinta e dois meses moraram aqui ao lado de casa. Peço a Deus que envie pessoas boas para me fazerem companhia. Se fosse para escolher, eu os escolheria novamente. Vizinhos são anjos. Mas quando a gente mora de aluguel, um dia um dos anjos bate asas e vai embora.
09 fevereiro, 2011
Novo desafio
A partir de hoje coloco no meu cotidiano um novo desafio. Esse é o meu quarto ano como professora de Língua Portuguesa. Desde 2008 sempre tive quintas-séries. Gosto da energia deles, dos olhos cheios de sede, da vontade e curiosidade de aprender a rotina do Ciclo II. Gosto de despertar neles o gosto pela leitura, escrita e principalmente o interesse pelos estudos. Tento criar uma atmosfera de troca e aprendizado constante. Principalmente a pesquisa e descoberta pelo prazer literário.
Não consigo entender como funciona o Ciclo II (1ª à 4ª série), sei que o desempenho de cada aluno é único, que cada um tem o seu tempo para ser alfabetizado. Nem todas as crianças começam a ler na 1ª série, para essa é necessário um trabalho muito mais intenso. O fato é que chegam muitas crianças na quinta série ainda não alfabetizadas, algumas no nível silábico e outras no nível alfabético.
É um desafio muito além do meu alcance. Não sou alfabetizadora, sou professora de Língua Portuguesa, no curso de Letras não me ensinaram a alfabetizar, o que tento é pelo meu esforço e amor ao que faço. Mesmo assim não consigo fazer milagres, pois são apenas cinco aulas semanais com mais de 30 alunos por sala, cada um com seu estágio de aprendizagem. Há os que dominam muito bem a leitura e escrita dentro dos padrões exigidos para a série, mas há aqueles que fazem apenas garatujas, as quais me deixam em desespero, sem saber por onde começar.
Sinto que há aí uma lacuna muito grande. O discurso político que ouvimos por aí "Crianças alfabetizadas na primeira série" e a realidade que enfrentamos diariamente nas salas de aula. Falta capacitação dos profissionais para lidar com essas situações, não apenas lidar, mas encontrar uma solução plausível. Como fazer? Como ensinar essa criança que passou quatro anos dentro de uma sala de aula e não aprendeu a ler? Não adianta tentar encontrar o culpado, resta ir em busca da solução. Ano passado tive oito alunos não alfabetizados em uma classe de trinta. Sei que não pude fazer muito por eles, mas me esforcei e os encaminhei para os especialistas da alfabetização disponíveis na escola.Não é muito, mas já foi um bom começo.
Esse ano tenho cinco alunos em uma sala de trinta e dois que não foram alfabetizados ainda. Será um desafio e tanto, já coloquei na minha lista de metas que até o término do ano letivo, dois deles, no mínimo, precisam estar lendo e escrevendo. Quero ver uma evolução no aprendizado dessas crianças. Não sou santa para fazer milagres, mas espero contar com o apoio das pessoas envolvidas (família, escola, especialistas e professores de outras áreas) para vencer esse desafio.
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Mais sobre níveis de desenvolvimento da escrita em:
Ferreiro, Emília e Teberosky, Ana: Psicogênese da língua Escrita. Ed. Artes Médicas. Porto Alegre, 1999.
03 fevereiro, 2011
Thanks
Foi dada a largada para a minha maratona de 2011.
E eu simplesmente não consigo escrever.
Então uso o espaço para agradecer
Por tudo o que vivo agora
Incomparável e Inexplicável.
Estou acordada
Mas sinto como se sonhasse.
Obrigada, Pai.
^^
E eu simplesmente não consigo escrever.
Então uso o espaço para agradecer
Por tudo o que vivo agora
Incomparável e Inexplicável.
Estou acordada
Mas sinto como se sonhasse.
Obrigada, Pai.
^^
26 janeiro, 2011
Vovô Firmino,
Ontem quando deitei para dormir, fiquei pensando no senhor. Lembrando sua alegria e forma de comunicação. Um homem astuto que lidava muito bem com as palavras. Palavras que me faziam sorrir, gargalhar, pelo simples fato de não conhecê-las. Eu o julgava ignorante, por pensar que as suas palavras eram erradas ou até mesmo inventadas. Mesmo assim, prestava muito atenção ao que dizia, só pra depois sair repetindo e zombando do seu modo firminês de falar.
Ainda lembro quando eu acordava pela manhã, pedia-lhe benção, ao que o senhor respondia: "Deus te abençoe minha fia". Lembro como o senhor acordava cedinho, mesmo aposentado, lá pelas 6h00 já estava de pé, coando o seu barulhento café.
Eu ouvia cada detalhe, e lembro como se fosse hoje. Primeiro o senhor levantava, lavava o rosto, ia ao quartinho, fazia suas necessidades e higiene matinais. Depois colocava o bule com água para esquentar no fogo. Ouvia atentamente as batidas da colher, colocando açúcar e adoçando a água, e o barulho do sopro esfriando a colherada de café sendo experimentada. Depois aquele cheirinho de café incendiava a casa.
O senhor ia para a calçada e dava "Bom Dia" a todos os compadres e comadres que passavam pela rua. Era nesse momento que eu ouvia o "passou..." bem baixinho. Cheguei a pensar durante toda a minha infância que o senhor estava contando cada um que passava, e na medida em que iam passando o senhor resmungava que aquele compadre já havia passado, numa espécie de conferência. Só pouco tempo atrás que me dei conta de que aquele passou podia representar uma pergunta: “Como passou?”.
Tinha dia que eu me demorava a levantar da cama só pra ouvir o senhor gritar lá do quintal: “Jaquélinooo, levanta!!! Vem passar manteiga no bico das galinha”. Gostava daquilo, mas nunca soube o significado. Também gostava de ouvir as histórias que contava sobre Romãozinho, um menino negrinho malcriado, que muito lembra o saci. O senhor dizia que quando trabalhava “lá fora” topava muito com ele pelas estradas. Apesar de ter medo do Romãozinho, gostava de ouvir as histórias, prometia sempre a mim, que jamais seria malcriada com minha mãe como o Romãozinho fora com a dele. E quando eu pensava em fazer qualquer má criação, o senhor me chamava pra ver a menina que tinha feito má criação com a mãe e me mostrava o espelho.
Quando o senhor ficava bravo, eu ficava só de longe espiando, com medo de sobrar pra mim. Não gostava de ficar “atiquizando” seu juízo. Era assim mesmo que o senhor falava: “Tu vai, me atiquizando, vai me atiquizando, quando eu estourar o juízo, tu vai ver só...”.
As poucas vezes que o vi sério, eram quando alguém o atiquizava, teimando, insistindo em alguma coisa, ou quando o senhor deixava o “texto” cair da panela, o senhor gritava “Pirla” bem alto. Desse xingamento eu ria mais ainda, mas só descobri o significado essa semana. O senhor xingava em italiano. Descobri essa semana que “pirla” quer dizer idiota, estúpido. Dependendo do contexto pode até fazer referência ao órgão sexual masculino.
Devo confessar que o senhor era mesmo hábil com as palavras. Pena que eu não tinha maturidade para aprender mais com o senhor. O que era estranho para mim, era uma verdadeira variação linguística. Se fosse fazer um levantamento do seu vocabulário hoje, daria para fazer um dicionário firminês.
O senhor calçava as “precatas”, ia no “Vadim” fazer a feira e voltava contente com sacolas e o jogo do bicho feito.
O que mais ficou em minha memória, das tantas lembranças, foi o dia em que eu, sentada na calçada de casa, estava estudando sobre a cultura dos povos Incas, Astecas e Maias. O senhor que não sabia ler, aproximou-se e começou a ver as imagens. Eu li todo o texto didático enquanto o senhor ficou de pé, com uma mão no queixo, dizendo: “Hum, Hum, tô cumpriendeno”. No outro dia, o senhor discursou orgulhoso na calçada para alguns compadres: “Jaquéliiino, já tá no terceiro grau. Essa menina pega uns livros do colégio e dá definição em tudo, tudo, tudo...”.
Fico pensando, sabe Vovô, naquela época eu tinha 11 anos e estava na sexta série. Hoje, aos 23, sou uma professora buscando realizar meus sonhos de menina. Lembro com tanto carinho e alegria do senhor, que sinto que não partiste. Que ainda está lá em Montanha, contando seus causos na calçada. Fico imaginando o que diria de mim...
Lembro do meu vovô com muito carinho, e agradeço a Deus pelo tempo que passamos juntos. Tenho memórias que nenhum dinheiro paga. Meu avô era um sábio com as palavras e com as histórias. Uma fonte inesgotável de cultura popular. Difícil aprender o que aprendi com ele nos livros já publicados.
![]() |
| Vovô Firmino, as rodas de conversa devem ter ficado mais animadas onde ele está agora |
____________________________
Vocabulário Firminês:
Lá fora: roças, fazendas, outros Estados onde viveu.
Atiquizar: Instigar, incitar, aborrecer.
Texto: tampa da panela
Pirla: idiota, estúpido
Precata: Alpercata – calçado de couro, chinelo, mais conhecida como papete.
Outra postagem com Vovô Firmino
12 janeiro, 2011
Manoel de Barros em Animação
Em 2009 tive uma grande descoberta literária. Encontrei as palavras do poeta Manoel de Barros. Suas memórias inventadas me encantaram, e logo percebi o quanto a gente vive desprezando as coisas simples da vida, principalmente os fatos da infância.
Desse encontro literário nasceu um trabalho¹ que desenvolvi com duas turmas de 6ª série/7º ano. Depois de terem lido as Memórias Inventadas de Manoel de Barros, os alunos escreveram suas memórias, umas inventadas e outras vividas, por eles e por seus pais. Além de publicadas no livro da turma, as memórias também foram publicadas em um blog de cada sala.
![]() |
| BARROS, Manoel de. Memórias Inventadas: as infâncias de Manoel de Barros / iluminuras de Martha Barros. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008. |
Fiquei muito feliz quando terminamos esse trabalho e cada turma lançou a sua coletânea de memórias.
A partir daí, Manoel de Barros passou a ter um novo sentido para mim.
A palavra sempre me encanta, e quem sabe usar as palavras de forma simples, mas encantadora, acaba me fazendo apaixonar. Quanto mais simples, mais fácil para eu me tornar fã.
Passei a seguir o twitter que homenageia o poeta com suas frases diárias. Assim, tenho a minha dose diária da simplicidade nas palavras do Manoel. E foi seguindo esse perfil que outro dia meus olhos e ouvidos tiveram o prazer de saborear uma obra de arte, um vídeo com poemas do Manoel, animação e narração de pessoas pra lá de talentosas. Vale a pena conferir.
"Dentre as coisas mais simples que já conheci, Manoel de Barros está no meio. Ele usa as palavras para falar de coisas tão simples e acaba transformando essa simplicidade da vida em poesia.
Manoel de Barros é para os sensíveis. Se você não for um sensível, depois de ler Manoel de Barros, acaba descobrindo esse seu lado poético, tens logo um encontro com teu eu-lírico."
______
Referências para entender a postagem:
Twitter em homenagem ao Poeta: @Poeta_ManoeldB
03 janeiro, 2011
Esperança. Como anda a tua?
Esse poema do Drummond é genial. Descreve bem essa esperança e "sentimento do novo" que toma conta das pessoas na passagem de um ano para o outro. Minha esperança não foi industrializada, ela existe de verdade e se renova a cada dia, não apenas na passagem de Dezembro para Janeiro. Minha esperança é casada com sonhos.
Como anda a tua?
"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a
que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no
limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e
entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra
vez, com outro
número e outra vontade de acreditar que daqui pra
diante vai ser diferente"
Espero de coração que a sua esperança seja calcada em sonhos e nos planos do Pai em tua vida. Que você não viva em função do milagre anual, da esperança do abraço e presente natalinos. Que o seu ano não seja baseado em capitalismo barato pregado pela sociedade sem valores.
Que você consiga chegar no dezembro próximo sem entregar os pontos. E se tiver que entregar, que seja para pegar um ponto melhor. Que seja no tempo certo.
Que você não tenha vontade de mudar apenas nas datas terminais. Queira mudar sempre, se estiver incomodado, mesmo que hoje, o dia da tua mudança seja dia 03 de janeiro. Não espere chegar a próxima segunda-feira para iniciar a dieta ou procurar um emprego novo. Mude quando sentir vontade. Não porque a sociedade te mandou.
A renovação acontece dentro de você, não passe 2011 pensando o que deveria ter mudado em 2010. Não fique esperando o milagre. Seja.
Feliz 2011. Com esperança de dentro para fora. Sempre!
(Jaqueline Flores)
referente a: E.E. Deputado Gregório Bezerra (ver no Google Sidewiki)
Como anda a tua?
"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a
que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no
limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e
entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra
vez, com outro
número e outra vontade de acreditar que daqui pra
diante vai ser diferente"
(Carlos Drummond de Andrade)
Espero de coração que a sua esperança seja calcada em sonhos e nos planos do Pai em tua vida. Que você não viva em função do milagre anual, da esperança do abraço e presente natalinos. Que o seu ano não seja baseado em capitalismo barato pregado pela sociedade sem valores.
Que você consiga chegar no dezembro próximo sem entregar os pontos. E se tiver que entregar, que seja para pegar um ponto melhor. Que seja no tempo certo.
Que você não tenha vontade de mudar apenas nas datas terminais. Queira mudar sempre, se estiver incomodado, mesmo que hoje, o dia da tua mudança seja dia 03 de janeiro. Não espere chegar a próxima segunda-feira para iniciar a dieta ou procurar um emprego novo. Mude quando sentir vontade. Não porque a sociedade te mandou.
A renovação acontece dentro de você, não passe 2011 pensando o que deveria ter mudado em 2010. Não fique esperando o milagre. Seja.
Feliz 2011. Com esperança de dentro para fora. Sempre!
(Jaqueline Flores)
referente a: E.E. Deputado Gregório Bezerra (ver no Google Sidewiki)
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